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Óbidos Património do Mundo
Muralhas de Óbidos
      Óbidos sofre contudo de um preconceito cultural, absolutamente infundamentado, de que sua imagem é o produto do espírito revivalista e nacionalista do Estado Novo, uma encenação qual “Portugal dos Pequeninos” para corresponder aos ideais da “Casa Portuguesa”, considerando muitos que o seu património foi adulterado por obras de restauro realizadas segundo critérios reintegristas de unidade de estilo e “alindado” para corresponder aos valores turísticos da época. Vejam-se os factos:

      Como os documentos e as fotografias do século XIX provam, a Vila encontrava-se no início do século XX, ou seja, antes das intervenções da DGEMN no Castelo, completamente rodeada por uma cintura muralhada, com cerca de metade dos merlões conservados, alguns panos da cerca muito arruinados e o Paço do Alcaide em ruína total, de que subsistiam somente os paramentos exteriores com restos de três vãos manuelinos. No interior das muralhas, Óbidos apresentava-se, grosso modo, como podemos ver hoje, com as suas casas caiadas com barras coloridas nos cunhais e socos, de que temos evidências históricas e iconográficas que atestam a sua utilização desde tempos recuados. A intervenção da DGEMN fez-se obviamente sentir como em praticamente todos os lugares do País, mas com muito menor intensidade do que tem sido divulgado. A partir dos anos trinta consolidaram-se as muralhas, reconstruindo-se alguns panos de muralha da Cerca Velha, repuseram-se os merlões em falta, demoliu-se a arruinada Torre do Relógio de 1847 sobre a Torre Albarrã e refez-se o interior do Paço de modo a acolher uma pousada (veja-se contudo que foram aproveitados os rebocos originais na sua grande parte!). O único monumento onde se pode dizer que foram aplicados princípios reintegracionistas é a antiga igreja extra-muros de São João do Mocharro, que foi recreada, conforme a política de restauros da época, dentro do que se supunha ter sido o seu aspecto primitivo, intervenção que está perfeitamente documentada.

      A Vila está muito longe de corresponder também a uma imagem de “pastiche” que por vezes se lhe quer atribuir. De entre os 264 edifícios da zona histórica de Óbidos, intra e extra-muros, estão identificados apenas quinze casas “pastiche”, cerca de dez onde foram feitas obras de “embelezamento”, como colunas, cantarias trabalhadas, mirantes ou floreiras, e em apenas um caso se reconstruiu com sentido reintegrista “pseudo-medieval”.

      Estamos assim seguros ao dizer que a Vila de Óbidos é um testemunho autêntico de um espaço urbano, não medieval, mas de raiz medieval, remontando a grande parte dos seus edifícios aos séculos XVI, XVII e XVIII, em que a pedra calcária, a cal, o barro e a madeira se associaram para criar a matéria densa do seu marco arquitectónico. A cuidada preservação destas estruturas edificadas permitiu a manutenção das características originais deste espaço urbano, com pormenores arquitectónicos notáveis, como algumas caixilharias de janelas que apenas se encontram em Guimarães e dispersas numa ou noutra zona do Alentejo, as chaminés cilíndricas, a configuração dos telhados de telha “mourisca”, a forma dos beirados, os ricos interiores senhoriais com tectos de masseira e lambris de azulejo, as grades das varandas dos séculos XVI, XVII e XVIII, etc. Óbidos é pois um caso raro no panorama urbanístico português, campo de estudos excepcional, que não pode ser desvirtuado por leituras pouco informadas e preconceituosas. O problema da sua autenticidade joga-se hoje, isso sim, estando a Câmara Municipal fortemente empenhada em inverter certos hábitos de reconstrução adoptados nos últimos anos (quando se perdeu o “saber fazer” dos antigos mestres pedreiros), implementando uma prática local de reabilitação, criteriosa e fundamentada, e dando particular atenção à recuperação de materiais e de técnicas tradicionais, de que existem já bons exemplos.

      Mas consideramos que não se pode compreender este valiosíssimo património sem o seu território, sem a sua envolvente natural, realidade histórico-paisagistica que adquire verdadeiro significado entendida na sua globalidade. De facto, este território onde se destaca o Centro Histórico é o resultado de um antiquíssimo processo evolutivo, obra conjunta do homem e da natureza, de que a Lagoa, outrora um vasto mar interior, é o eixo histórico definidor, moldando ao longo dos séculos a sua evolução física e humana. É na orla da Lagoa, nas suas dimensões históricas, que se fixam as primeiras populações (grutas da Columbeira e Cezaredas e mais tarde o Outeiro da Assenta com assentamento permanente desde a Pré-história recente ao período medieval), que os romanos instalam o seu porto de mar – Eburobritium – referido pelos historiadores da Antiguidade e que se ergue no período medieval a fortaleza de Óbidos. Foi também da Lagoa que as gentes de Óbidos retiraram e retiram o seu sustento, o que originou tipologias próprias de construções de abrigo e de embarcações – as palhotas e as bateiras da Lagoa – e que com o seu recuo gradual se conquistaram os mais férteis terrenos agrícolas - as Várzeas - numa interacção entre o homem e a natureza, que se conserva até aos nossos dias.

      Resultado desta interacção são também alguns núcleos rurais do Concelho de Óbidos, sobretudo A-da-Gorda, Amoreira, Olho Marinho e Sobral da Lagoa, núcleos que conservam ainda uma grande coerência e que são ilustrativos do povoamento rural da Oeste Estremenho, com os seus terreiros e ruelas de traçado irregular, onde se detecta a influência dos modelos desenvolvidos na capital do território, não só ao nível de tipologias arquitectónicas e morfologia urbana, mas também ao nível do património artístico móvel, como é patente em algumas igrejas por vezes de surpreendente riqueza artística, aldeias que estão em fase de classificação como Conjuntos de Interesse Municipal.

      Este região geocultural, claramente definida, apresenta características raras, senão únicas, no contexto internacional, pela perfeita e identificada simbiose de fenómenos culturais e naturais, que nos levam a pensar que só tem sentido apresentar uma Candidatura de Óbidos como Paisagem Cultural, entendida como paisagem evolutiva (número II do ponto 39 das Orientações), resultado da resposta que o homem soube dar aos desafios que a natureza lhe foi colocando ao longo de milénios, mas sobretudo paisagem viva, que conserva uma função social activa, ligada a modos de vida tradicionais com formas concretas de exploração das terras e da Lagoa que permitem continuar esse processo evolutivo. Candidatar o Centro Histórico isoladamente seria apresentá-lo de uma forma descontextualizada, amputando todo um sistema coerentemente definido.

      Impõe-se assim uma abordagem integrada do riquíssimo património histórico e natural, material e imaterial, contido neste vasto território, ou seja, tanto dos lugares centrais e de maior qualidade urbana e arquitectónica, o Centro Histórico e as aldeias que o circundam, como da arquitectura religiosa dispersa, das casas rurais, da arquitectura de produção, dos espaços rurais e suas infra-estruturas, ou mesmo de equipamentos, mas também dos vários ecossistemas e unidades de paisagem, bem como das actividades tradicionais, agrícolas e piscatórias, com modos de vida próprios e seculares ainda activos e de grande importância para a economia da região, sem esquecer a religiosidade popular – procissões, círios e romarias - como expressão concreta de um peculiar modo de viver e sentir das gentes de Óbidos, dentro de um ciclo anual de celebrações que, pela sua autenticidade e pela forma como congrega as populações da região, assume características únicas em Portugal, conferindo à “Sede do Concelho” um carácter simbólico.

      A área a classificar deverá ser característica desta realidade, definida pela sua funcionalidade e inteligibilidade, o que corresponde geograficamente à área compreendida entre a Lagoa e as ruínas romanas de Eburobritium, abrangendo o sistema de várzeas, extremamente bem conservado paisagisticamente e que engloba parte das bacias dos rios Arnoia e Real, definindo-se como zona tampão a parte correspondente à antiga bacia da Lagoa, compreendendo a zona sul do concelho até ao planalto das Cezaredas e englobando as aldeias referidas, área que assim definida e delimitada apresenta boas condições de gestão.

      A Candidatura a Paisagem Cultural é certamente mais exigente e são muitos os problemas a que urge dar resposta - ambientais, patrimoniais, urbanísticos, económicos e sociais - mas eles são também um estímulo ainda mais forte para prosseguir.

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